30.11.09

And as the red rivers of my life flow from its tunnels and cave I see lies and falseness die.

Queria escrever algo que estivesse à altura ou à baixeza dos acontecimentos, mas foi-se o tempo em que eu ia até as extremidades: hoje me equilibro, a contragosto, na linha que divide o sim e o não. A fronteira do talvez, da dúvida, do nem-dia-nem-noite, do nem-sol-nem-chuva, o istmo entre seus deuses e meu deus dos sem-deus. Insano e insone, te dou as mãos, os olhos e o coração. Tudo vazio e seu. Tudo chão sem céu. Eu sei, eu sei, eu sei, é tudo sem sentido, direção de laço e abraço partido. Mas permanecemos. Indeléveis, inexoráveis, perenes. Serenos. Nós, ao menos. O resto, que reste, que não preste.

16.11.09

The sources of life are bleeding.

Não acredito em mais nada
Não acredito em mais ninguém
Pois não existe nada além
Do que há adiante desta estrada

Por isso bato em retirada
Deixo um adeus aqui também
E com a língua assim, calada
Vou partindo naquele trem

É com destino ao vazio
Às águas turvas desse rio
Que todos chamam de morte

No meu mergulho ao esquecimento
Penso no último momento
Como eu queria ser mais forte.

4.11.09

Queria atrasar o meu relógio: pra mim vale muito um minuto a mais de ódio.

[00h40min] Antes do fim. Venho de um lugar que não é lugar nenhum. Defronte o espelho, minha imagem cinzenta e oval permanece mais perversamente jovem que o simulacro hiper-real do rosto que lhe deu origem, num tempo empoeirado na desmemoria de mim. Escorro pela areia, me afogo no abismo do tempo e bato com o corpo frágil nas rochas do fundo do nada. Despedaçado, vou até as margens da imensidão vazia da eternidade. Depois do começo. [00h50min]

27.10.09

This is not today not even tomorrow.

Ausência de esperança, desespero, nenhum sentido ou sentimento num raio de existências perfiladas. Miríade dos olhares que acusam e recusam, mentiras e teorias, culpas e desculpas enganos ridículos e grandes perversidades. Sobretudo medo. Pesar. Já sei de tudo. Não quero conhecer mais ninguém. Já vivi muitas verdades. Agora me permitam morrer nas tuas mentiras. Ao meu imenso público, ao júri, aos deuses do ódio e da chuva: já escrevi coisas melhores, já fui até alguém melhor. Tinha essa ilusão, e ela até me bastou. Até enganei vocês. Máscara sob máscara, máscara sob máscara, e não havia sequer um rosto atrás aquilo tudo. Somente o vazio. Agora eu, sem rosto, volto para meu lugar-comum-nenhum, com as frases-(per)feitas que aprendi por aí e ensinei a vocês. E agora me vou. Sem aplausos, nem vaias, a cortina se abaixa, os créditos sobem, o livro se fecha. Flores murchas, olhos vazios, coração frio. Silêncio de não se conseguir ouvir.

19.10.09

No ar que se respira, nos gestos mais banais.

Segunda-feira profunda de chuva escura, de tempo vazio e pessoas cheias da semana que nem começou direito. Pensamentos sem jeito de seres da mesma espécies ao mesmo tempo presos e perdidos na infinidade do não ser que preenche todas as horas, que sente pressa e traz a demora. Morrendo no resto da vida lívida dividida de quem sente que adiante só existe o retorno para o mesmo princípio, destino, caminhar cheio de cinismo. Perdendo-se em cada gesto impensado, em cada palavra rude. Desoladamente, instante a instante, como se escorresse por um abismo que as pessoas cavam e insistem em não enxergar depois.

4.10.09

I'm living in a room without any view.

[21h20min] |Tem gente que não se toca | Não troca de jeito | Não larga do peito | A imensa e inútil carga | Que desde nascença | Cai como uma rede | Sobre quem não sai | Da sede que cobre | Toda a existência | E cobra seu preço | A vida e a morte. | [21h28min]

18.9.09

Vamos ficar em silêncio pra perceber o momento.

[14h56min] Vamos olhar um pro outro, esquecer qualquer outro momento, ignorar tudo que é pouco diante desse sentimento. Vamos ficar o silêncio, deixar que os olhares revelem, num momento de reverência o que está marcado na pele. Vamos, num grande abraço, infinito beijo, estreitar o eterno laço, reafirmar o nosso desejo. Vamos, num majestoso “sim”, de mãos dadas até o fim. [14h58min]

11.9.09

Desatino de ler o próprio destino sem poder mudar-lhe a sorte.

[10h16min] | Os deuses escondidos atrás de cada linha | Cada folha | Cada escolha | Observam a alma, lívida e sozinha | Desvendam com calma | Segredos que desconheço |Destinos que não mereço | Medos e desatinos | Na minha escada que dá para o infinito perdido nos deuses. | [10h21min]

3.9.09

Sans mercy, sans compassion, nor will to answer whosoever asketh the why.

O encontro teve sabor de despedida. O acaso, sem medo nem desejo, apenas uma gentileza. O rapaz esperava a namorada perto da catraca do metrô. Lygia Fagundes Telles nas mãos. Tosse no peito, ardência nos olhos, cansaço nas pernas. E o trem da espera jamais chegava à estação, embora os trilhos de sua trilha vibrassem de ansiedade. Quanta gente indo e vindo em visíveis auras de cansaço e preocupação. Distração: o marcador de páginas borboleteou do livro e caiu no chão. Antes que o moço terminasse a genuflexão de seus joelhos machucados, uma jovem dama agarrou o papel esguio para ele, retribuiu o agradecimento e partiu sorrindo, satisfeita, sem olhar para trás. O acaso partiu sem dar adeus, nas feições que mal se encontraram, e o amor continuou sua espera paciente, entre outros moços distraídos e algumas placas de propaganda, pelos olhos que justificavam tudo.

25.8.09

E, quando comes, te rodeiam moscas.

Este poema não tem um sentimento
Este poema sequer tem um sentido
É barco naufragado, é arco partido
É um imenso vazio em meio ao tormento

É chuva de verão, coisa de momento
Algo que sequer houve e já foi perdido
Numa vã tentativa de passatempo
Enquanto o mundo não se dá por vencido

A punição jamais foi algo moderno
Espera da espera: isto é que é o Inferno
- Não penso em ninguém enquanto aqui estou

Eis-me aqui com as chagas de um cristo imundo
O som desolador, do orbe oriundo
- A ânsia de um sem-fim que já terminou.

21.8.09

And feel the dirt, grief, anger and strife.

Então é o fim: | Ficamos lado a lado | Em lados opostos | Virados os rostos | E o peso do fado: | - Eu contra mim.

Ficamos assim: | O medo calado | Cheio de desgosto | Quase decomposto | Amor abandonado | - E que o não seja sim.

10.8.09

Like your heartbeat when you realize you're dying, but you're trying .

Não existe "imperdoável" para o amor.

3.8.09

Quantas vezes a gente sobrevive à hora da verdade?

Você tropeça nos próprios passos, cai no fosso enlameado dos próprios erros. Sua casca se quebra, não há mais nada a te proteger das intempéries de lágrimas corrosivas.

Os inimigos, cheios de mágoa, rancor e razão, se aproveitam, e chutam, pisam, cospem: você não é ninguém sem seus inimigos. Quando estes te esquecerem, nada restará da sua existência.

Uma casca, uma casca, meu reino por uma casca, você pensa. Mas sequer existe um pedaço de mundo neste mundo que lhe pertença. Quem aceitaria uma oferta de Vazio?

E você ri, e ri, e ri. É teu jeito de chorar, de desprezar o valor que um dia alguém te deu e você desperdiçou.

Agora você não passa de um molusco desamparado, ferido e descuidado, esperando o esquecimento ou a morte; o que vier mais rápido, já que a dor nem importa mais.

Em silêncio, por favor.

31.7.09

This pure flight of transparency mutating into the new circle of power.

[14h30min] Vamos despetalar, mastigar, morder, fazer morrer tudo que é razão nesta vida, tudo que é saída deste labirinto, pois nada do que eu sinto pode descrever o que escrevo, finjo, minto e replanto só para arrancar tudo de novo, desejar um querer maior que a morte, tão forte que não se meça, que ninguém peça tanto, uma vida de comer, beber, engolir, engasgar, só para regurgitar o que atinjo com palavras, com palavras, com palavras. [14h34min]

30.7.09

We feel the pull in the land of a thousand guilts.

Eis-me aqui: | No quarto de hotel; | Numa cidadela qualquer do Céu, | Sento-me à beira da cama, | Tiro os sapatos com lama. | E recostado nas cobertas, | Veias da memória abertas | De repente vêm as memórias | Todas aquelas histórias | Feito uma assombração | Feito uma velha canção | Que faltou ser concluída | Paixão que não teve saída | E faz ruir o meu telhado | E o chão ficar molhado | De tanta lágrima tardia | E enquanto o entardecer ardia | No sol que afundava no horizonte | Vinham-me defronte | Os rostos desapegados | Espíritos despreparados | Para tudo que viria | E quem diria? | Lembra de quando estávamos tão perto? | De quando tudo era mais certo | À distância de um abraço, | Atados por um forte laço | Que parecia nunca se quebrar? | Achávamos que nada ia mudar: | Sob a luz de tais olhares, | Tudo era tão legal, |”Nunca ia ter final”. | Mas estávamos errados | Naqueles tempos desterrados | E aquela coisa de infância | Era só ignorância | De sentimentos espalhados | Em velhos álbuns empilhados | Que hoje revejo sem interesse | Como se eu me esquecesse | De tudo aquilo que vivi.