7.1.19

Mas puseram-te numa praia de onde os barcos saíam para perderem-se.


Ciprestes ao vento:
Por vielas de pedra,
Entre anjos trincados,
Cruzeiros cinzentos
E céu empoeirado,
Te imagino deitada
Leve, carregada,
No cortejo, em silêncio
Que só é quebrado
Por pranto e soluço,
Engasgado ou rasgado,
Talvez pelos ruídos
Vindos da avenida
Pelos muros baixos
Da tua morada
Agora definitiva;
Quase vejo o chão
Do simplório jazigo
Onde repousarás
Para a despedida,
Descanso que não vi,
Onde tu já não hás;
Com orvalho nas flores
Que ora te ornam,                   
Poeiras nos lábios,
Pra sempre calados,
E estrelas mortas
Nos olhos vazios.

23.12.18

May the tributes of faith be rendered to faith.


Já nem sei mais se vale a pena
Deter-se aqui ou caminhar,
Pois já nem sei o meu lugar;
Veja a chuva: antes serena,
Tornou-se uma tempestade
– O infortúnio da vontade.

E de fracasso em fracasso
Eu vou fazendo meu sucesso:
Ter fé em si, conceito lasso,
De sonhar por atacado,
Não receber qualquer recado,
Fica em qualquer impresso.

O escrever, tão estimado,
No fim, não faz nem diferença,
Ninguém se importa, na verdade;
Das vaidades, a vaidade
De saber que reingresso
Ao panteão do descompasso.

Irrelevante, quase amargo,
‘Inda fingindo que sou forte,
Esqueço as miseráveis linhas;
E a indiferença passa ao largo
Do sopro tépido da morte
– As frustrações que são só minhas.

22.12.18

Instintivamente eu me agarro ao abismo.

 
Eis que se desmancha o tempo
Em silêncio, aflição:
Decepção, rancor, loucura;
É o limite, a extremidade,
Pranto que não comove
– Um navegador sem nau.

Pois, feito peixe no areal
[Quiçá, chuva que não chove],
Os grãos da vida, saudade,
Quanto mais você procura,
Vê-se: permanecerão
Sempre em outro momento.

Perto e longe, afinal,
Se tira a prova dos nove:
Dá no mesmo – a eternidade
É sombria, sempre escura;
Quantos sonhos restarão?,
É um tanto-faz, desalento.

Vem a noite, um lamento:
Diga sim, mas pense não;
Amanhece: desventura
De existir, pois a verdade,
Che ancora non si muove,
Sem início, é o final.

28.7.18

E, no cansaço, deitaremos imensos, na planície vazia de memórias.


Intermitências: sem fim,
Começo, ou meio,
Por veredas insuspeitas
De vingança e remissão,
Na noite densa, absurda,
Em pálido abandono,
Desmancha sobre o orbe
A decadência sutil
Das despedidas de julho
[Frio, extenso, escuro, intenso],
Asas de anjos infernais,
Avesso da tua presença:
Sob o céu de nuvens sujas
Contra o chão de passos falhos,
Em silêncio, em devoção,
Almas quaram no varal,
Ao pó de um velho universo
– Rútilas flores de abismo.

9.7.18

Hoy te digo que creo en el pasado como punto de llegada.


Eu já não sei o que fazer com o tempo,
Que ora parece pouco, e ora tanto;
E me confundo se já tive, ou tenho,
De tanto instante solto, desmedido,
Algum motivo, talvez impreciso,
Um compromisso, até desnecessário,
Que me liberte do que eu nem sei.

Instantes passam e eu, sempre atento,
Como esperasse ouvir um rude canto,
Que me fizesse até doer o cenho,
Tenho um desejo, quase proibido,
O qual oculto, pra manter o siso:
É me perder, em tal itinerário,
Que me abandone aonde eu nem sei.

Então, quase sem jeito, eu invento
Um interstício, feito um acalanto,
Em que eu guarde tudo que mantenho
Do pouco tempo, que, quase perdido,
Eu não vivi, e agora eternizo,
No que não fiz, um rito funerário,
Tudo que resta, o quê?, eu já nem sei.

24.6.18

Wenn Sie meine Hand auslasse, ist es, als wären wir tausend Meilen voneinander entfernt.


Uma tarde de junho,
Feito um lance de dados:
Amizade em punho,
Dez anos, a vida;
Um instante, calados,
Como se fosse acaso,
Dado o tamanho atraso
- Mas existe saída?

Foram passando as horas
Por uma tão sutil fresta
E olha!, já anoitecia;
Restava a profecia,
Feito sarças de fogo,
Pra deixar tudo em jogo,
Aparar cada aresta
E desfazer a demora.

Então um beijo, um abraço
O existir, num abismo,
E não havia espaço
Para mim sem você;
E num tremor feito sismo,
O tempo se partiu,
Tão vagaroso, baldio

-
E eu vivi em você.

8.6.18

You talk to me as if from a distance and I reply with impressions chosen from another time.


De um deserto para o outro,
Que sempre está a me alcançar,
Eu vou correndo, vou fugindo,
Até, enfim, eu perceber,
Que o deserto ainda está lá;
Que o deserto de você
É o deserto que há em mim.

Queima de sol, queima de frio;
O céu e o chão são minha dor,
De tudo e nada, imensidão,
Inescapável, é o que há
De turvas vistas, repetição
– E o deserto, o grande horror.

De tanto pó e tanto sol,
Imensa areia a rodear,
Que me seguia aonde eu fosse,
Ao final do dia, eu vi,
Tão absorto e sem ar,
Que o deserto era eu.

16.2.18

Calma, calma, também não é tudo assim escuridão e morte.


Tem dias em que olho pro mundo
E penso ‘não está tudo meio incompleto?’
Às vezes, porém, me parece mesmo
Que faz é bom tempo que já acabou.

Caio do alto do azulado infinito,
E meus pedaços, vou deixando por aí:
As mãos, em cada texto que não fiz,
Feito os rastros do que havia – bem e mal;
Quem já não sou, sei lá se fui,
Vai pro fundo do mar esverdeado.

Hoje não sei bem o que escrever:
Nem todo fevereiro tem dias de Carnaval,
E há tantos cristos que fogem da cruz;
Sem mentir qualquer virtude,
Nem trair algum receio, eu sei
- Cada um é a poeira de outro caminho.

Às vezes, é verdade, tenho pressa
Sem nem saber aonde quero, enfim, chegar;
Em outras horas, estou tranquilo, a esperar
Pelas canções, por palavras – você.

2.2.18

E os teus olhos não buscam mais lugares.


É quando já não há mais tempo
Que todos vêm, ao telefone, me avisar:
Deixaste o corpo, a carne, a vida,
E os sombrios insucessos para trás.

Às tantas dificuldades, enfim,
Deste as costas; tanta aposta,
Tanta reza, que deu somente em nada,
Até que, então, resolveste descansar.

Aqui, correm os ponteiros do relógio,
Aí não bate mais a vida em teu peito;
Resta a mágoa do destino, atrás dos olhos,
E a terra, sobre os ossos, derramada.

Cessa o tempo, doloroso, para ti,
Fica a vida, incompleta, para nós;
Já não há mais girassóis para essa luz,
E todas as tuas flores são de adeus.

No lamaçal do enevoado amanhecer,
Os cães ladram e ladeiam pelas lajes,
Ao som do lúgubre e amargo cantochão
Para o madeiro descido ao abismo.

Ao redor, parentes, amigos, conhecidos;
Entristecidos, cada qual no seu canto,
Ora envoltos em pranto, ora apenas contritos,
Ao sabor do impermanente e finito.

Não quis te ver caído, inexistindo
No acre fado sob o sol e o céu;
Guardo lembrança de quando caminhavas
Pela vida que agora te encerra.

Olhos cerrados, no descanso infindável,
E, sob a lápide gelada, o teu nome;
Jazes na relva - escuridão, placidez,
Na distância do silêncio e do nunca.

É tudo que tens agora – a eternidade;
Ficamos aqui com a memória
Envolta em tempo, em poeira, no vazio,
E tu aí, imóvel onde o tempo já não há.

30.5.17

O tal vez para olvidar que eres caminante aprendiz, que estás muriendo temprano y ya no tiene dignidad.


Já quis muito,
Tentei ser tanto na vida;
Em meio a tanta dúvida,
Muito quis, tanto fui, nada sou.

Escritor, atleta, artista...
Não há quem não desista de tanta tentativa;
Hoje mal sirvo pra reservista
De tanto sonho em que me alistei.

14.5.17

Look I gotta go, yeah, I'm running outta change; there's a lot of things if I could I'd rearrange.


Eu poderia escrever
Um livro inteiro
Sobre os planos que já tive
E não cumpri.

Um grande álbum de fotos
Dos lugares a que não fui
E anotações de livros
que não li nem escrevi.

Jogar fora alguns papeis
Notas amassadas do devir
É desistir oficialmente
De alguns planos
Deliberadamente acordar
De qualquer sonho.

Eu vou ali e volto já
Mas quem eu volto?
E qual eu deixo lá?
Ninguém que eu fui
Nada serei?

Hoje é um dia que não há,
Que mal foi, que não era
Pra ter sido, que jamais
Devia haver.

Mas estou nele, no grande
Vazio
De um universo
Inteiro
Só pra mim.

Com tantas latas de cerveja,
Roupa de outros carnavais,
Um violão desafinado
E um olhar sempre ao chão.

Sempre um novo começo
Do que não tem mais fim;
Hora de não sei quê,
Véspera de esperar nunca.

11.5.17

No es mi corazón el que está repicando, solamente las agujas que ya no soportan el silencio y por eso quieren salir de pecho.


Os dias baços, descoloridos,
Passam por mim com vagar.
Imprecisos, feito nuvens
De um outono que não há.

Um mês, um ano, mil séculos?
Quanto tempo se passou?, já nem sei.
Já nem sou
O que pensei.

Os dias lassos, descontínuos,
Fogem de mim sem pensar.
Sem destino, voam longe
Para alguém que não sou.

Eu pensei tanto, escrevi tanto
Tinha tanto a dizer,
Sentir, mas o quê?
Já nem sei
O porquê.

A cada dia se desmontam
As certezas, as vontades,
Uma vida inteira de outras vidas
Vãs, desperdiçadas
Em que se erguem silêncios indizíveis.

O que houve? Um país, tantas vontades
Outra pessoa?, nem conheço.
Não reconheço mais,
Pois já é tarde
E se apartam laços outrora indivisíveis.

24.8.16

Pero, anote, abandonado de verdad, no con esos imperfectos, anhelosos y en definitiva inútiles abandonos que la vida nos proporciona.


A madrugada vem,
Desaba
Sem nenhuma sutileza,
Logo a trazer nos braços 
 – Tristeza –
Outro amanhecer idêntico,
Outro despertar inútil
A quem nem adormeceu
E quem não está aqui.

Calo-me, aflito
Diante do infinito,
Que é o medo de existir;
E o tempo vem, inexorável,
O tempo vai, inatingível,
Em vagas tempestuosas
De um escuro mar sem fim.

Dormir, sonhar? Exatamente,
Não há
Como nem ou por quê
Simplesmente partir, deixar
O corpo, o dia, a vida
– O chão feito de não.

Não há fuga, não há
Como pedir ajuda;
Não há saída, não há
Como deixar a vida
Fora
Do lugar, que na verdade
É lugar nenhum.

Noite tão longa,
Longe, espessa,
Impenetrável;
Atravesso na névoa,
Feito barco rumo ao cais
De tantas infinitudes
Desimportantes, desterradas
– Que não há.

Já desisti de tantos sonhos,
Hoje este é só mais um:
Vícios, vicissitudes,
Tanto faz mais um ou não;
Pois o tempo está passando,
E eu quero ficar pra trás.

2.7.16

E assim fui sendo esse leque de coisas fluidas e inquietas.


A vida é sempre
A mesma: qualquer
Esforço sem porquê
Não sei, não há
Mais nada ou menos
Do que eu esperava ver
E ser e só.

Uma angústia, véspera
De outubros, silêncio
Por mortos que enterro
Nas quartas de cinza
Por glórias caídas
No chão dos milagres
Desfeitos, sem jeito
De ser e só.

Tropeço nos passos
Tão próprios a isso,
De tanto cansaço, ainda
Que finda nas ruas
De pedra, das flores
Eternas
Que são de papel
Em que deixo caírem
Metades, vontades
E uns dois ou três versos
Que são sempre os mesmos
Como igual é a vida
Que é ser e só.

As marés, manhãs
Do fim
Do mundo
Poeira, de águas
Abismo, de azul
De auroras
Parnaso, de anjos
Sem asas
Nem eternidade
E lá no horizonte
Anunciação
Da fé sem mim
Do porquê do fim
Por ser e só.

Não desejo nada
E nada me espera
Só restaram nuvens, e o corpo
Ao chão
Ou não
Ser
E só.

5.6.16

O mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca.


Mais um domingo finda, baço,
Sem vontade, lasso, frio;
De neblina, garoa, ausência,
E uma angústia, um não sei quê.

Encontram-se final e início
No interstício de existir:
Guardar pra si toda essa ânsia 
– A distância até ser mais feliz.

Aperta o passo, chega logo!,
Aonde?, nenhum lugar;
O que te espera além da noite
– Só mais um tanto de cansaço.

A madrugada, com o pesar das horas,
E as folhas do calendário,
Leva às ruínas de quaisquer escolhas
– Itinerário da desolação.

E já se anuncia, até previsível,
Qualquer outra dessas tempestades:
Ansiedades de amor e morte,
Torpor que dá só de se estar vivo.

Carnaval feito de cinzas,
Ou dir-se-ia repetições,
De alegria, tristeza, nada,
Que voltarão com a alvorada.