4.4.11
No life's so short it can't turn around.
Voltei por essas idas de tanto fim sem nenhum começo, afastando o desejo do que não conheço, estandarte de trapos imundos de vômito erguido em reverência a tudo que é bestial de tão humano, estúpido de tão sincero, cruel de tanta insegurança. E que venha toda a má-aventurança. Veja quantos astros infernais nos observam: a punição é o desinteresse, a indiscrição, as sombras no escuro, simplesmente o vazio. O esquecimento, o que mais dói. E o que ainda causa sofrimento? De cima abaixo, acertam e erram, não importa o que façam – eles nos julgam, nos usam, nos inundam. Quanto drama, quanto choro, quanta suplica! E este texto mastigado de outras imemórias. O resto, que é tudo, nem está na história. Ninguém mais cantou vitória. Não entendo. É o que vejo. Revivendo. Sem mais desejo. Só uma coisa assim amorfa, indefinida, suicida. Deve ser o que chamam de vida.
17.3.11
Muito longe de mim na escuridão ativa da noite que caiu.
Passado transpassado a sujo em pesadelos, pisado feito sangue nas chagas, esparso nos olhos. Medo nas unhas roídas dos dedos, nos cabelos pálidos, arrancados, caídos no chão. Destino de mão em mão, nas cartas em mangas arregaçadas, desgraças previstas em fotos de revistas, entrevistas nos jornais, nas culpas e desculpas que adormecem, mas não morrem. Em folhas de papel nas árvores de sonho triste, resiste o enfadonho resquício sombrio da condenação sem réu, da dor sem dó. São escolhas, desafetos, dialetos que ninguém conhece, porém, quando amanhece, restam os restos, corre-se pelos corredores, e não existe lugar algum. Toda a existência limita o sonho e imita o despertar sem fim de uma noitada ruim.
9.3.11
The line it is drawn, the curse it is cast, the slow one now will later be fast.
Pegou aquele Dia de Finados, meio cinzento, silencioso e, sobretudo, solitário – havia mais morte dentro de si do que em todos os cemitérios juntos, para uma insólita aventura: visitar alguns velórios de pessoas desconhecidas. Infiltrar-se como se fosse um conhecido só do morto, um parente distante daqueles que só aparecem em tais ocasiões, e procurar, na listagem à Administração, um nome que lhe fosse simpático. Daí era só se aproximar, com suas roupas casuais, discretas, sua fala monocórdia e seus gestos educados. Adentrava, olhava bem o defunto, tentava alguma empatia com aquela coisa rígida e amarelada, coberta de flores e impávida. Depois consolava a família mais próxima sob a luz das velas e o perfume dos crisântemos. Saía entre as coroas de “saudades eternas” e, após ouvir conversas nas diversas rodas de amigos e familiares que pareciam mais distantes, descobria coisas o suficiente sobre o morto para engatar algumas conversas. O resto era conseqüência, só deixar rolar. Ninguém ali estava em condições de questionar nada, nem ninguém. Quando enjoava, saía em silêncio e ia a outra sala, depois a outro cemitério. Enterros não lhe interessavam, a coisa era mais desbragada, menos solene, os gritos de desespero, o descaso dos coveiros, nada sutil. Queria a sintonia fina do interstício entre a morte e a morte além da morte. E, sobretudo, achava interessante alguém morrer justo no Dia dos Mortos, um clichê que, por sua ironia, não deixava de ser amargamente engraçado.
28.2.11
Perderia tudo para não guardar silêncio.
Ela é uma pessoa vazia. Gosta um tanto de ver filmes, mas não lê livro nenhum. Às vezes fuma, às vezes bebe, às vezes dá para alguém. Diz que ama e se apaixona, que acredita em Deus e nas amigas feias. Sua mãe é crente daqueles pastores de televisão, seu pai morreu há vinte anos na porta do bar. Dez por cento para o pastor, dez tiros no peito embriagado. Seu avô já tentou abusar dela, mas ela desgosta mesmo é do padrasto. E sempre perdoa o primo bêbado que passa as mãos em suas pernas. Ela mora longe, ela não é ninguém. Ela vive sozinha, ela não é ninguém. Usa perfumes discretos, tem vergonha do corpo e não sabe trepar direito. Fala muito, chora muito, e tudo é irritante. Entregou-se ao primeiro que apareceu a fim de esquecer uma paixão amarga. Falam dela pelas costas, riem quando ela se aproxima. Ela corta os próprios pulsos, mas tem medo de morrer. Toma antidepressivos, benzodiazepínicos, mas não sai do emprego ruim. Foi traída pelo noivo, humilhada, insultada. Na verdade mereceu, ela pensa, pois falhou. Não se dedicou direito, interferiram, atrapalharam, e ela apenas se omitiu. Porque ela não tinha tesão, porque sempre dizia não, pois era tão-só desânimo, engano, fraqueza e fraca gentileza. Romantismo barato, tolo e ingrato, oco e ingrato. Parasita agarrada, triste, desesperada, iludida e ridícula, vivendo o que há de mais grotesco. Ouve músicas antigas, veste roupas velhas e puídas. Lábios tímidos e contraídos, a voz de quem pede desculpas. Ela tem a pele rude, ela tem o rosto acre. Suas mãos estão cansadas, ela nunca sai de casa. Ela tem os olhos tristes. Ela não é ninguém. Ela tem caráter sujo. Ela não é ninguém. Não pertence a lugar algum, vai morrer num canto qualquer. Vazia, fria, à revelia de tudo.
15.2.11
Afora isso ia indo, atravessando, seguindo, nem chorando, nem sorrindo.
Tudo está escrito, em páginas viradas
Em tardes suadas, tão ensolaradas
De moscas e moças pr’a lá e pr’a cá
É todo um infinito de gente alheia
Gente sem sangue correndo na veia
Perdida em volta de tudo que não há
Ando a mil milhas d’onde não vim
Vejo que não há início nem fim
Não existe a trilha, só o caminhar
Em ruas solitárias do meu cansaço
Nuvens de chuva banham o espaço
Estrelas brilham no fundo do mar.
Em tardes suadas, tão ensolaradas
De moscas e moças pr’a lá e pr’a cá
É todo um infinito de gente alheia
Gente sem sangue correndo na veia
Perdida em volta de tudo que não há
Ando a mil milhas d’onde não vim
Vejo que não há início nem fim
Não existe a trilha, só o caminhar
Em ruas solitárias do meu cansaço
Nuvens de chuva banham o espaço
Estrelas brilham no fundo do mar.
30.1.11
If you begin to fall, please have some more. You could stay at my place if you want: I'll sleep on the floor (for long and faithful service).
[ Ao som de Alcest, "Sur l'Océan Couleur De Fer". ]
Há tanto tempo escrevo as mesmas coisas divididas em vidas já vividas que nem sei por que ainda perco meu tempo, na verdade roubado de você, a esmo no pranto não derramado, entardecer molhado de suor, de ócio, ódio e ópio, paz infernal, de cemitério, de campos de flores pisadas, de mágoas já ultrapassadas, porém jamais esquecidas.
Vivemos no fundo de um oceano de ar
Ver-de-amar
E só de te olhar eu já sei
Que no fundo da lagoa onde te enterrei
Reverso do final do mundo
Ao menos despedir-me-ei
De tudo que nunca representou
Nada além do que já sou.
[ “Imbue me now, let the spirit take form, so that I can receive thy punishment with dignity, with dignity. Make use of me! Make use of this flame, so that I can receive thy ineffable splendor with dignity, with dignity!” ]
Há tanto tempo escrevo as mesmas coisas divididas em vidas já vividas que nem sei por que ainda perco meu tempo, na verdade roubado de você, a esmo no pranto não derramado, entardecer molhado de suor, de ócio, ódio e ópio, paz infernal, de cemitério, de campos de flores pisadas, de mágoas já ultrapassadas, porém jamais esquecidas.
Vivemos no fundo de um oceano de ar
Ver-de-amar
E só de te olhar eu já sei
Que no fundo da lagoa onde te enterrei
Reverso do final do mundo
Ao menos despedir-me-ei
De tudo que nunca representou
Nada além do que já sou.
[ “Imbue me now, let the spirit take form, so that I can receive thy punishment with dignity, with dignity. Make use of me! Make use of this flame, so that I can receive thy ineffable splendor with dignity, with dignity!” ]
5.1.11
A thousand people come and go and stay and fade away.
Passou o tempo de chorar
- E eu sorri
Nem lembro quem é você
- Te esqueci
E enquanto todos lamentam
- Eu vivi.
- E eu sorri
Nem lembro quem é você
- Te esqueci
E enquanto todos lamentam
- Eu vivi.
31.12.10
Na verdade, "virtude" é uma palavra tão perigosa que devemos nos apressar em explicar.
[22h29min]
Outros universos imersos nas mesmas palavras
E no entanto te calavas
Atrasada, distaída
A ver passar a vida
Enquanto fingias ser infeliz.
Foi por um triz que não me enterrastes de vez
Mas a minha solene voz
Ergueu-se contra o algoz
Que um dia fora importante
E hoje é uma ausência na estante.
Enfrentei numa noite a minha própria ira
Mentira e verdade
Naquela cidade
Que de tão feia é bela
E hoje segue morta e esquecida.
Atravesso hoje cadáveres insepultos
Nêmese de antigos cultos
Gênese de todos os tumultos
E nesta noite sou riquíssimo de mim.
Do princípio ao fim e do final tudo de novo
Em poucos dias
Em que dirias
Que eu desapareceria sem sorte
Porém descobri que sou imortal até a morte.
[22h40min]
Outros universos imersos nas mesmas palavras
E no entanto te calavas
Atrasada, distaída
A ver passar a vida
Enquanto fingias ser infeliz.
Foi por um triz que não me enterrastes de vez
Mas a minha solene voz
Ergueu-se contra o algoz
Que um dia fora importante
E hoje é uma ausência na estante.
Enfrentei numa noite a minha própria ira
Mentira e verdade
Naquela cidade
Que de tão feia é bela
E hoje segue morta e esquecida.
Atravesso hoje cadáveres insepultos
Nêmese de antigos cultos
Gênese de todos os tumultos
E nesta noite sou riquíssimo de mim.
Do princípio ao fim e do final tudo de novo
Em poucos dias
Em que dirias
Que eu desapareceria sem sorte
Porém descobri que sou imortal até a morte.
[22h40min]
26.12.10
E um pássaro no meu ombro responde: não há vida nem morte.
[16h59min]
Um desafio: escrever uma história feliz.
Seria hipocrisia?
Tudo se perde na memória
Mas ainda vou te encontrar
Também vou te desafiar –
Duvido!
A fingir ser feliz novamente
A seguir em frente
Atrás do Mal de do Bem
Até o final
- Amém.
[17h03min]
Um desafio: escrever uma história feliz.
Seria hipocrisia?
Tudo se perde na memória
Mas ainda vou te encontrar
Também vou te desafiar –
Duvido!
A fingir ser feliz novamente
A seguir em frente
Atrás do Mal de do Bem
Até o final
- Amém.
[17h03min]
E a morte se inclinou, piedosa e enternecida.
Não durmo mais. E nem preciso mais dormir. Não sinto mais dor. Não existe mais angústia. Uma vez que a ansiedade foi lançada na mesa, só restam a redenção e a frustração. Aliás, a dor existe sim, persiste. Mas, certa quanto o sol que morre e renasce todos os dias, a ausência de esperança é o caminho. Sozinho com você, lado, braço, abraço e vós. Luz de mil sóis. O sacrifício foi feito, a fim de que o descaminho me fosse jogado à cara. Mergulho, batismo, decomposição em composição. Este foi só o fim; agora vamos. Aonde? Sol, eu sei.
7.12.10
Destino eu faço, não peço.
Preciso destas palavras ou elas de mim? E quanto à vida? Ah, as pessoas, as coisas, os pensamentos... as verdades e vertigens de tantas sensações que se perdem no mesmo encontro, feito marés de rios infernais que se reviram e se deformam a esmo no mesmo vórtice de pesadelos... isto aqui é mera indiscrição. Tanto faz marcar o tempo, um compromisso, fazer promessas ou medir fracassos. Tudo é sucesso nas paradas do trem que sai dos trilhos de Nada para os confins que Quase-Tudo. E para quem julgou que eu me mantivesse mudo, mais uma vez errou. Aqui estou, onde sempre estarei, de onde jamais saí. A raiz indissociável do meu jardim. Morto, deposto, ressurreto, e até jamais ver. Estou com você, sou mais-do-que-eu. No sol negro, nas flores do mal, no ópio da mais pura verdade.
28.11.10
Let the flames purify my soul on its way to hall up high.
Imensa fogueira sem nenhuma vaidade
Cidade inteira suspensa na manhã do fim
Em frente de mim a iridescente vida
É consumida em instantes pelo fogo
E logo tudo que era mágoa se esvai
Enquanto cai o pano sobre a mentira
Que revira agora somente na treva
Que leva embora o que um dia foi luz.
Cidade inteira suspensa na manhã do fim
Em frente de mim a iridescente vida
É consumida em instantes pelo fogo
E logo tudo que era mágoa se esvai
Enquanto cai o pano sobre a mentira
Que revira agora somente na treva
Que leva embora o que um dia foi luz.
27.11.10
Todas as grandes ações e todos os grandes pensamentos têm um começo ridículo.
[11h22min]
O sol arde no céu anunciando a nossa tarde
Derramando feito véu seus raios luminosos
Auspiciosos e insensatos em sua paciência
Na iminência de não cumprir nada do rol
Das coisas que eu havia desistido de fazer.
Já me lembrei do que eu precisava esquecer
E já nem sei mais porque eu ainda insistia
Em resistir querendo outra existência
Se eu sei a mesmíssima falta de paciência
Ainda iria sempre e sempre me acompanhar.
Quero retornar ao desencontro infinito
Do antigo mito que criei para mim mesmo
E viver mais a esmo neste imenso oceano
Eternamente puro e vazio que é viver
Ewige wiederkunft do Sísifo feliz.
[11h35min]
O sol arde no céu anunciando a nossa tarde
Derramando feito véu seus raios luminosos
Auspiciosos e insensatos em sua paciência
Na iminência de não cumprir nada do rol
Das coisas que eu havia desistido de fazer.
Já me lembrei do que eu precisava esquecer
E já nem sei mais porque eu ainda insistia
Em resistir querendo outra existência
Se eu sei a mesmíssima falta de paciência
Ainda iria sempre e sempre me acompanhar.
Quero retornar ao desencontro infinito
Do antigo mito que criei para mim mesmo
E viver mais a esmo neste imenso oceano
Eternamente puro e vazio que é viver
Ewige wiederkunft do Sísifo feliz.
[11h35min]
26.11.10
Eu trago na vontade todo o futuro traçado!
[16h42min] A cor do entardecer, um jasmim, qualquer flor. Um ato qualquer, uma fuga, essa dor. Um amor, um lugar, mesa posta, jantar. Cama feita, pôr-do-sol, não-te-esqueças-de-mim. Noite sem luar, infinita e sem cor. Olhos profundos de nunca dormir, dia que não quer mais amanhecer. [16h46min]
We'll watch the seas start to die.
[14h18min]
Em teu sereno olhar, a redenção
Que brilha n’alta noite feito a luz dos círios
Qual um lírio nascendo no jardim
No mais profundo do não-sei-de-mim
Em teus pequenos lábios, o veneno
Contra toda a contradição e o martírio
Ao agridoce de uma canção
Que em conselhos, talvez sábios
Trouxe-me até aqui para dizer
Que, de tudo que vivi, tu és a Divindade
Luz que empalidece as noites da cidade
Lírica, única verdade, que sorri
Que não envelhece, estandarte, monumento
No abraço morno de um gesto lento
Num eterno movimento de retorno
Ao seu lugar que é aqui
- Tu és minha constelação.
[14h23min]
Em teu sereno olhar, a redenção
Que brilha n’alta noite feito a luz dos círios
Qual um lírio nascendo no jardim
No mais profundo do não-sei-de-mim
Em teus pequenos lábios, o veneno
Contra toda a contradição e o martírio
Ao agridoce de uma canção
Que em conselhos, talvez sábios
Trouxe-me até aqui para dizer
Que, de tudo que vivi, tu és a Divindade
Luz que empalidece as noites da cidade
Lírica, única verdade, que sorri
Que não envelhece, estandarte, monumento
No abraço morno de um gesto lento
Num eterno movimento de retorno
Ao seu lugar que é aqui
- Tu és minha constelação.
[14h23min]
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