11.9.13

Eu sei que o mundo é um fluxo sem leito e é só no oco do seu peito que corre um rio.


                                                                      
                                                                       “As I wait each night
                                                                    For a darkness to come
                                                                           And hide me away
                                                              From the hate of this world
                                                               From the sun of this world
                                                               From the life of this world
                                                          From the truth of this world.

                                      (Frostmoon Eclipse, Under Pale City Lights)



E lá está o tal caramujo:
Se recolhendo em sua casca,
Silencioso, fraco e sujo,
Para fugir de uma borrasca;
Se protegendo da ventania
Que corre as pedras da baía.
Ele não pensa em quase nada:
Ele só busca a proteção
Da violenta onda gelada
Que vem do mar da escuridão.

A pegajosa lesma vai
Para o casulo mais uma vez,
E a garoa cortante cai
Do céu tristonho de palidez;
As nuvens passam no horizonte
E fica a espuma da maré cheia,
Na esquecida praia defronte
Ao caramujo a chorar na areia.
– E o mundo lá fora?, cinza e frio,
Cinza e frio, cinza e frio, cinza e frio.



[O tema e os dois últimos versos (os únicos que lembro de cor, por isso quebram a harmonia do poema) são de um texto em prosa que fiz em 2006 para meu finado blog A Via Crúcis Do Corpo (2005-2010) e cujo original perdi, então resolvi aproveitá-lo em outro formato e outras ideias.]

20.8.13

E o tempo, despovoado e profundo, persiste.


                                                  “Conheço quase o mundo inteiro
                                                                         Por cartão postal
                                                    Eu sei de quase tudo um pouco 

                                                                      E quase tudo mal.
                                                            (Leoni, Nada Tanto Assim)



Releio os mapas e os guias
É minha única alegria
– Fingir que estou a viajar.

Eu vou traçando as diretrizes
E os roteiros dos países
Sem nem sair da residência.

Desfaço e faço sempre as malas
Levo-as do quarto para a sala
Justificando a existência.

Tenho um mural para as imagens
E uma caixa pras mensagens
Que não tirei nem escrevi.

E sinto sempre a saudade
De cada canto das cidades
De tudo aquilo que não vi.

E chego quase a me esquecer
De que eu nunca vou viver
Para me ver nesses lugares.

Retorno ao ponto de partida
Sem ter a chance de saída
Nem mergulhar em outros mares.

Mas sei de todas as histórias
E trago tudo na memória
– Eu sou quem não estava lá.

29.7.13

Nem propriamente mágoa, mas qualquer coisa assim com o sabor sarcástico de uma advertência.



                                                                  "O céu, um círculo fez
                                                                  E eu, o que fiz?
                                                                  – O mesmo outra vez.
                                                                  O sol nasceu e morreu
                                                                  E eu, ainda não;
                                                                 
Um dia, talvez."
                                                                  
                                                                  (Pato Fu, Ninguém)


Diz: quanta falta de sentido
Existe numa direção?
Se o coração, cinza e partido,
Sabe que nunca tornarão
Os dias cálidos de outrora
Sem o cinismo de agora?

E o que reserva o Destino
(Esse discreto assassino)
A quem já sabe seu caminho?
Se a esperança, em desalinho,
Tem sua morte decretada
Em qualquer curva da estrada?

Mudar a trilha? Impossível,
Toda escolha já está feita
Desde o início, desde sempre,
Está escrita desde o ventre,
E saber disso ou ter suspeita
É u’a vantagem desprezível.

Resta fingir surpresa quando
Nos virmos pálidos diante
Dessa final desolação,
Mas sem valor em tal desmando;
Pois você sabe: o diamante
No fim não passa de carvão.

Não há lição para aprender,
Não há sentido em sofrer
E ninguém cresce com a dor.
É só pretexto pra existir
Sem nem pensar mais no pior
E deixar tudo esvair.

Vão-se as noites e os dias,
E veja: nada vai mudar.
Resta então se acostumar
Ao mesmo ponto de partida
E superar a apatia
Que é viver sempre a vida.

17.6.13

The stars you gathered, the stars I destroyed.

 Fim da farsa, cai o pano:
 Tanto fez que conseguiu!
 Onde foi parar aquele
 Amor de cheiro, de pele...?
 Desperdiçou-me, e se partiu
 No esforço cotidiano,
 Se quebrou e ninguém viu,
 Foi só mais um desengano.
 – E que tudo se congele.

 Pois foi em dia nenhum
 (Nem lembro qual foi o mês)
 Que o amor decidiu morrer
 À míngua, pra merecer
 O descaso em tal viés,
 Como ‘inda houvesse algum
 Sentimento feito rês,
 Acorrentado ao comum
 E malquisto bem-querer.

 Na verdade nunca houve
 Uma nota que encaixasse
 Em nossa velha canção
 Dissonante e sem razão;
 Ah!, se o silêncio esperasse!...
 E se o acaso lhe aprouve,
 Então faltou quem contasse
 Que é cinza o que chove
 Sobre o meu coração.

 E hoje nem sinto falta
 Do que já nem tinha em mim.
 Fica somente o vazio,
 Certa ausência que dá frio,
 A paixão em um confim.
 E sabe qual é a pauta?
 “– É como a saudade enfim
 Bebesse, sem sede, incauta,
 Toda a água de um rio”.

 Nesta confusão imensa,
 Já nem lembro quanto tempo
 Passou desde o início
 Deste texto, desse vício;
 Já não sopra mais o vento
 Que trazia tua presença,
 E sozinho agora entro
 N’outra inútil renascença.
 – A vida é interstício.

3.6.13

Der sorg har beseiret alle gleder og bygd et land på menneskets jord fylt med isklad prakt og heder.


I


Noite deserta, hora absurda
E eu já nem sei mais o que estou esperando

“Quem aí já desistiu hoje?”
“Quem aí já insistiu hoje?”
“Quem aí já existiu hoje?”

Agora me arrasto pelas sombras
No intervalo
Vazio, deserto
Sem nada nem ninguém por perto

Incompleto, sozinho
Ave fora do ninho
Rútilo, incorreto
Alquebrado, circunflexo
Morto ou ressurreto
Embarcação sem porto
– O que já foi embora.


II

Coexistimos na distância e no silêncio
Nas intermitências mínimas
De impossível permanência
Do que quase foi, do que teria sido
Que se perdeu no vento
Na noite

No chão de qualquer desgosto
Nas moscas, nos ratos, nos vermes
No sol negro de urubus em espiral
Em comichões, angústias, sangramentos

No desespero em deixar de existir
Nas asas manchadas, descoloridas
Daquele anjo que pousou sobre o adeus

– E os pássaros estavam todos mortos.


III

E eu quis tanto a paz
A paz do alto dos mais altos montes
A paz do fundo dos teus olhos tristes
E saudava o abstrato infinito

No infinito sem fim
Que era eu sem você

Na dor cuja expressão foi o abandono
De toda fé e toda alegria
(E teu amor era sempre travessia)
E eu vivia
Sempre o dia de você

Enfim exausto de lutar tuas batalhas
Do teu orgulho eu fiz minha mortalha
Na qual foi repousar a minha dor.


IV

E eu já nem sirvo mais
Pra desatinos e humanismos de sofá

“É quando não consigo mais fugir”
“É quando não consigo mais fingir”

Mas eu ainda espero pelo sol nascer
Que já se pôs, que já se foi, que já não há

Pelo deus que desistiu e não virá
Qualquer amor que nunca tive e nem quis

A luz do sol, de uma estrela que morreu
A solidão de um triste céu que escureceu

E vem você e nem me diz
“Então, qual é a cor do mar?”
– É cinza

E é muito frio também o mar que não tem fim

Mais escuro que o negrume desta noite

Na espuma da areia
Na água nas pedras
No agridoce cantar

Deslizando no pranto
Nas plumas da asa partida
Derramada no horizonte tardio
Silencioso e sem por quê.

V

Talvez não haja outra vida
Uma saída
– E estejamos todos sós.

9.5.13

You must admit, the Sun is dying.


I

Sonolenta madrugada

Amanhece qualquer dia

(Silêncio, impermanência)

Outra noite vai morrer
E com ela quase tudo
Que é insone, que não tem nome

Os homens e os deuses
O adeus de tantas horas
Ser, Tempo, Nada, Verdade
Eu
Ninguém

É que há muito não vejo
As tais manhãs do fim do mundo
(Os dias já sabem nascer sem mim)

Quantas eternidades
Venturas perdidas
Estrelas, nuvens, flores, mar
Pedras, areia, desejo, destino

Quase não lembro do mar infinito
Cinzento
Das estrelas da noite sem fim

Tudo deságua no vazio
Dessas páginas viradas
De um pranto que não cai
Nessa ausência, nessa falta
De barco sem cais
De asa de ave sem céu
De anjo sem deus
De mim

Nessa dor de tantos nomes
A razão de tantos ais
Do silêncio de ninguém mais.


II

Desmanchado
Resta-me o intervalo
Interstício tão breve
E por isso que me calo
Desde o início
Num sorriso
Ou algo que o valha para alguém

Esse por do sol em mim
Essa mágoa do sem-fim
– Tudo é ressentimento

Calado assim, fadado ao fim
Enfim desconstruído, dissoluto
Num minuto já perdido

Momento fugidio
Da vontade de já ter ido embora
E a sensação de ter dito demais

Vivendo a vida de outro alguém
Outrem qualquer
E construir outro destino
(Quem sabe até outra pessoa)
Desconhecer o fim da história
Feito quando a velha vida
Era só mais uma novidade
No meio daquele existir

E eu fico aqui
Poesia desunida
Espalhada, em ruínas
Procurando motivos
Pra esquecer
E marcar no calendário
Coisas que jamais irei fazer

Um dia
Quis as eternidades
Desvelar a quietudes do não-ser
Hoje nem preciso que ninguém me diga
Eu sei
O fim do mundo é logo ali
E só.

4.4.13

Eu quero ver se vale a pena seguir viagem ao mar sem cor.


É na inércia da existência
Que finjo não viver a vida
E reitero a ilusão:

Pois quem teria paciência
De encontrar uma saída
Da aridez do coração?

Se num tropeço repentino
Foi nos braços do destino
Que acabei por me atirar?

E se o viver me olvidar
Renegarei tudo que vejo:
– Futilidade do desejo.

Melhor fechar logo as ventanas
E esquecer o itinerário
Pois nada muda realmente.

Tua lembrança é somente
O interminável bestiário
Das frustrações cotidianas.

15.2.13

Minha palavra é continuada pelas perguntas que não têm resposta.

Si tu m'aimais, et si je t'aimais, comme je t'aimerais!
[Paul Géraldy, Toi Et Moi (épigraphe)]

Existo apenas em linguagem:
Amado apenas em efígie,
Minha presença é ilusão.

Ressentimento e frustração:
No escuro lodo do Estige,
Eis minha pálida imagem.

O quanto dura a paciência,
Barco esquecido em qualquer cais?
– Vai a maré, fria e vã.

Já esperei meia existência,
Esperarei por quantas mais?
– Sequer existe amanhã.

5.2.13

Ya non tienes tan claro porque vas, por que no alcanzas el tiempo que no para.


I

Eis a verdade
E ela é vazia
Distante, indiferente
Fria Senhora, ignora toda a gente
Vaidade de morte sem luto
Beijo sem saliva ou desejo
Passo sempre em falso dos pés descalços
Num quarto de hotel
No corpo morto do mártir
Num ato qualquer
Nas mentiras da arte
Nos fins de tarde em mim.


II

Pois simplesmente transbordou
Desaguou no fim
De tanto rio
Urgente
O pranto mudo de céu e chão
Feito véu
Meses a fio
Em vão.


III

Digam aos pais
Aos teus
A quem mais?
Aos peões do jogo
Que não há mais véus
Nem réus
Que foi tudo um logro
– E não há mais amor.

21.1.13

Agora esse futuro está aqui, a meus pés, morto.


I

Não crie casos por tão pouco,
Seja carta fora do baralho.
– Vamos deixar isso pra lá?

Mostre seus calos de trabalho,
Ah, e também não banque o louco.
– Que tal deixar isso pra lá?

Mantenha o ouvido sempre mouco
E me desculpe se atrapalho.
– Melhor deixar isso pra lá.


II

O que eu faço é o que sou:
Jamais busquei a redenção.
O que me resta é o que falta:
A esperança jaz incauta,
Vem sempre a queda após o voo
– E tudo isso foi em vão.

Pois no rasgar de cada folha
Nem bem importa sim ou não;
Às vezes não quero escolher
E todo mundo vai dizer
Que cada passo é uma escolha
– E toda escolha é ilusão.

3.1.13

Doch hort mich morgen nicht an Ich kann den trostlichen Beweis erbringen kann hinab in das mutterliche Dunkel wo Finsternis und Chaos uber Erd' und Himmel richten.

Nesta tristeza que parece até mentira
Na dor profunda que emana desse corte
Eu nem sei mesmo como devo avisar
Que não existe horizonte nesse mar
E nem certeza que não seja a da morte
Enquanto a vida tão cansada se retira.

Desacredite se quiser da minha febre
Mesmo que tudo termine em silêncio
Pois a vergonha mata tanto quanto o amor
E nossa vida juntos tenha sido breve
Que uma lágrima permita o anúncio
Possamos nós nos abraçar num estertor.

Mas só depois de entregar o corpo ao chão
As minhas rimas contarão a nossa história
Porque enquanto eu fizer versos neste mundo
Porque lá dentro do mais íntimo e profundo
Meus pensamentos buscarão tua memória
– E que esta seja minha última canção.

3.12.12

Blesne blekne blåner fjell inn i en gråvendt natt jeg reiser over bleknede blåners fjell og her i mørket er jeg forlatt.


[Soneto feito em 2006 (mais ou menos), inspirado no filme Espantalho (1973), de Jerry Schatzberg, com Gene Hackman e Al Pacino, e refeito semana passada.]


Na chuva não se veem as suas lágrimas
E enquanto o deus-tempo vira as páginas
Os corvos vêm zombar no dia findo
Sim, os malditos corvos estão rindo!

Seu sangue que cai é palha de estofo
Quando lhe pesa a roupa em tempestade
Misturam-se as tintas em seu rosto
E a água esconde a piedade.

E ele nem protege os canteiros
Só diverte os corvos galhofeiros
– É feito o Cristo só, sem redenção.

Pensam com pena: é mesmo um coitado!
Palhaço triste, já crucificado,
Nem pode esperar ressurreição!

9.11.12

Já uma dor vaga flutuava no fundo dos seus olhos: a dor seca das insônias.


Às vezes tens vontade de escrever?
Uma novela, um conto, alguns versos,
Ou um ensaio sobre qualquer tema,
Como se pensamentos tão dispersos
Tornassem interessante o teu problema,
E alguém se interessasse em te ler?

As ideias parecem bem melhores
Na mente do que postas no papel,
Quando elas parecem enferrujar
No contato com cada velho olhar,
Que faz o julgamento tão cruel.
– E lá se vai a arte aos estertores.

Saiba que os escárnios chegam lentos,
E externar sentimentos será sempre
Garantia de alguma frustração;
Melhor já abortar logo no ventre
O esboço de poema ou de canção,
Para se proteger dos julgamentos.

Percebe as palavras de desdém:
Um elogio será sempre mentira
E o silêncio, uma zombaria.
Eis o melhor conselho que eu daria:
Evita que essa dor ‘inda te fira,
Jamais escreve versos a ninguém.

23.10.12

Victory after all, I suppose! Well... but sad or merry, I must leave it now.


 “Então a porta se abriu
E alguém me pediu
Pra ficar calmo.
Ficar calmo?
‘Quem é louco aqui?’,
Falei pra distrair
E ninguém quis sorrir.
‘Fica calmo.’
‘Eu sou calmo!’”

(Violins, O Manicômio)


“Quer a verdade?” Acho que não;
Não quero mais essa sensação
De que a vida não vale a pena,
Assistindo sempre à mesma cena;
Dizer num ato meio impensado
“Ah!, eu me sinto muito cansado”
Só pra manter essa aparência.
– Eu sinto a minha própria ausência.

Uma pequena repetição:
O azar fica à própria sorte.
Estou cansado desse cansaço;
A vida fica meio em suspenso
E resoluto ante o fracasso,
Só resta agora esse imenso
Resto de vida à própria sorte.
– Na terceira ou quarta desilusão.

2.10.12

Eyes burn like an October sunrise.


A vida: este intervalo de mim mesmo
Vai acabando de acabar o tempo todo
Porém sem nunca terminar de acabar
Neste afã de inventar a própria morte
A releitura desse jogo de você
Moto-perpétuo da vontade de existir
Eu nem pareço acreditar no que escrevi
Pois nada disso me parece especial.
E ninguém mais pode dizer a tua dor.