6.11.15
A loucura da recusa, essa feita de círculos concêntricos e nunca chegando ao centro, a ilusão encarnada ofuscante de encontrar e compreender. A loucura da recusa. De um dizer tudo bem, estamos aqui e isto não basta, recusamo-nos a compreender.
Arde o fim de tarde
Numa cidade qualquer
– Mesmo sem sol.
Tarde, quase noite;
Estrelas em lassidão
Se derramam aos poucos
– No vazio.
Instante perdido
No meio do calendário,
Numa folha rasgada,
Bandeira suja, estandarte
De um país que não sei.
Pórtico partido
Para o mar cinza e frio
De uma cidade morta
Sem barcos nem cais,
Sem gente nem vento,
Onde o tempo não veio.
E naquele mundaréu
De gente, fios e furtos,
De pedra, poeira,
De álcool, de fé,
De névoa, de nada,
De não e ninguém,
A vida se perdeu.
A corda, já aos trapos
[Tessitura do ser,
Do existir, do haver],
Se rompeu, desistiu;
Em farelos, destroços
Sequer fez menção
De não se dissolver.
Do baço crepúsculo
Atrás das ruínas,
Um horizonte esquecido
Trouxe saudade
De não tê-lo visto,
Feito amor que não foi.
Quis viver o intervalo,
Instante anterior
Ao que não foi vivido;
A palavra não dita,
O dia não nascido.
Viver e morrer,
Desaparecer,
Sem se reconhecer
– Em ninguém.
Nos vãos e desvãos do Ser
Se esconder
– Impermanecer.
27.10.15
Je saisis en sombrant que la seule verité de l’homme, enfin entrevue, est d’être une supplication sans résponse.
Hoje eu vou deixar o dia começar antes da vida.
Enquanto o sol mortiço
Tinge a pálida alvorada,
Deixo a alma repousada;
Em pátios desolados,
Ruínas devastadas,
N’outrora verdes prados,
Hoje petrificados,
Em cárcere, ausência,
Em letra e língua morta,
Em sombra, em corpo
– Em silêncio.
No silêncio estridente
Dos pássaros de palha;
Como quem desiste sempre,
Sem deixar de existir nunca;
Na confusa convulsão
Do velho barco contra o cais
Entristecido e vazio;
Na palidez do abandono
Taciturno, inclemente;
Na tempestade
– Inútil liberdade.
Um minuto a mais de ódio:
Rancor, tédio, cansaço;
Enquanto a Morte olha de longe,
Tediosa, lenta e baça,
Com sutil desinteresse,
Algumas vezes me parece
Que ainda resta muita vida,
Muita noite, muito dia,
Para o tão pouco que é viver;
E nada nunca se esvazia
– No Vazio.
Errar toda uma vida:
Desrazão não redimida
Nem na quietude do Não-Ser;
No interstício entre dois mundos,
Sigo em silêncio, contrafeito,
A desejar que o dia, o ano,
A vida acabe de acabar,
Esperando nem sei o quê;
Um dia que não sei qual é,
Rezando a um deus
– Que não há.
Pois finda a vida e amanhã é outro dia.
28.8.15
Às vezes preciso escrever coisas que em parte me escapam, mas que provam precisamente o que em mim é mais forte do que eu.
Vi-me tragado, assim meio de repente, para o vórtice de alguma coisa da qual não sabia direito o nome, mas que havia se tornado – e isso eu vi bem antes de chegar ao fundo, ainda quando lutava para que meu existir não me escapasse pelos desvãos entre os ossos, soterrado, sufocado e afogado por aquela voragem torrencial de perdição soturnamente vazia – o que eu já havia sido, com suas faces sombrias de amargura e grotesquidão, e que no fundo sempre estivera à minha espreita, no meu encalço, seguindo cada descompasso meu – e ali nos reencontramos, sem que, na verdade, jamais tivéssemos deixado de fazer parte um do outro, porém, quando cheguei ao fundo, que na verdade era a mesma paragem que o início, numa queda que não era nem para cima, nem para baixo; estava então entre os edifícios tumulares de tão frios, entre árvores ressequidas de cidades vazias com pessoas cheias de si, que sequer sabiam se iam ou vinham nas gigantescas pontes de rude concreto armado, e então me pus a caminhar de forma trôpega, ainda que decididamente, até algum templo de deuses sem Deus, rodeado por muralhas de pavor, em meio a florestas petrificadas de loucura, tudo em meio a um paço ao mesmo tempo solitário e ruidoso, de sombras odiosas sob um céu abrasivo de azul profundamente trespassado pelo ar seco e desagradavelmente terroso.
Naquela dor cheia de angústia, de não querer adormecer, de não querer mais acordar, só para não sucumbir aos terrores, estertores, e despertar sendo o mesmo de novo, dentro e fora do mesmo ovo dos mesmos deuses de ontem, esperando o que nem sabia, quem eu nem era – e, então, naquele momento impessoal e inútil, eu ri e ri e ri, de mim, de tudo, do Nada que que eu era, fui, seria; ria da morte, do medo, do fim, da sorte de estar sendo ter sido não ser nunca mais, ria um riso horrível de torpor e dormência de quem já havia tomado tanto remédio e tanto veneno, ouvido e seguido tanto conselho, e ignorado tanta outra coisa, de quem rezou para tantos deuses e contra os mesmos blasfemou, de quem amou e odiou tanta gente e tanta coisa, e nunca se sentiu melhor, e nunca se sentiu pior –, porém, vagando sob aquele sol que ardia no fim de tarde quente, enquanto tantas estrelas frias queimavam em meu peito, ansiado e contrafeito, diante de vivos e mortos, solidão e loucura, dinheiro e mãos sujas no Eterno Retorno aos planos desimportantes, e aos sonhos dos quais ninguém sabe, soube uma vez mais que, quando até o espírito te abandona, é o corpo que permanece lá, sem esperança, sem droga nenhuma, sozinho porque é preciso estar sozinho, para recomeçar novamente diante do velho mundo, para o novo dia amanhecer e quase tudo ficar bem.
Naquela dor cheia de angústia, de não querer adormecer, de não querer mais acordar, só para não sucumbir aos terrores, estertores, e despertar sendo o mesmo de novo, dentro e fora do mesmo ovo dos mesmos deuses de ontem, esperando o que nem sabia, quem eu nem era – e, então, naquele momento impessoal e inútil, eu ri e ri e ri, de mim, de tudo, do Nada que que eu era, fui, seria; ria da morte, do medo, do fim, da sorte de estar sendo ter sido não ser nunca mais, ria um riso horrível de torpor e dormência de quem já havia tomado tanto remédio e tanto veneno, ouvido e seguido tanto conselho, e ignorado tanta outra coisa, de quem rezou para tantos deuses e contra os mesmos blasfemou, de quem amou e odiou tanta gente e tanta coisa, e nunca se sentiu melhor, e nunca se sentiu pior –, porém, vagando sob aquele sol que ardia no fim de tarde quente, enquanto tantas estrelas frias queimavam em meu peito, ansiado e contrafeito, diante de vivos e mortos, solidão e loucura, dinheiro e mãos sujas no Eterno Retorno aos planos desimportantes, e aos sonhos dos quais ninguém sabe, soube uma vez mais que, quando até o espírito te abandona, é o corpo que permanece lá, sem esperança, sem droga nenhuma, sozinho porque é preciso estar sozinho, para recomeçar novamente diante do velho mundo, para o novo dia amanhecer e quase tudo ficar bem.
2.6.15
De resto, nada em mim é certo e está de acordo consigo próprio.
O que você tem feito da vida?
Ou o que ela, então, tem feito
Dos teus desejos, de tantos sonhos,
Que você teve, por tanto tempo,
E hoje finge que, desatento,
Os dias passam, tão enfadonhos
E ansiado, tão contrafeito,
Sequer lamenta a escolha perdida?
Sei que meus temas são circulares;
Peço perdão por repetições
Eventuais e por outros vícios,
Essas questões que eu reinvento
Para atingir outros patamares
Das mesmas dores e aflições
- Retorno eterno desses suplícios -,
Como pudessem servir de alento.
Em pensamentos muito dispersos
Concluo, tarde, ter esgotado
Todas as vãs possibilidades
De me expressar com este lirismo,
Viver a vida com novidades;
Um vez mais no fundo do abismo,
Acho melhor, pois, ficar calado
- Talvez parar de escrever versos.
Ou o que ela, então, tem feito
Dos teus desejos, de tantos sonhos,
Que você teve, por tanto tempo,
E hoje finge que, desatento,
Os dias passam, tão enfadonhos
E ansiado, tão contrafeito,
Sequer lamenta a escolha perdida?
Sei que meus temas são circulares;
Peço perdão por repetições
Eventuais e por outros vícios,
Essas questões que eu reinvento
Para atingir outros patamares
Das mesmas dores e aflições
- Retorno eterno desses suplícios -,
Como pudessem servir de alento.
Em pensamentos muito dispersos
Concluo, tarde, ter esgotado
Todas as vãs possibilidades
De me expressar com este lirismo,
Viver a vida com novidades;
Um vez mais no fundo do abismo,
Acho melhor, pois, ficar calado
- Talvez parar de escrever versos.
17.5.15
I wonder why life must be a life that lasts eternally.
Sentes angústia porque as lágrimas
Que tu jamais irás derramar
Não mais preenchem as velhas páginas
Com toda a mágoa e o pesar
De versos lúgubres e incertos
E tudo fica lá, represado,
Na solidão de tantos desertos,
No peito oco e tão cansado,
Já oprimido por tanto peso
Da rude e sólida existência
Que te destrói no cotidiano
Te arrancando quaisquer vontades;
Não tem papel, parede ou pano
Em que escrevas, sem que te enfades
De registrar, com algum desprezo,
O sofrimento e a paciência
De levantar a cada manhã
E, enfrentando a multidão,
Permanecer, ‘inda que malsão,
A lutar sempre a luta vã
Contra a língua morta da vida,
Na qual ninguém jamais se entende,
Em tal silêncio, que se pretende
Amargar feito qualquer bebida,
De travo forte e entorpecente,
De frases rudes, futilidade,
Tão encharcadas de desespero,
Que você pensa, sente ou diz,
Quando a lembrar que não és feliz
E que o final desse entrevero
Te angustia, pois, na verdade,
Morrer?, algo tão inconsistente!...
23.12.14
Por isso temos braços longos para os adeuses.
“You were seeking strength, justice, splendour!
You were seeking love!
Here is the pit, here is your pit!
Its name is SILENCE.”
(Deathspell Omega, Apokatastasis Pantôn)
Envelhecer: um pouco mais
Da mesma coisa que é viver
O tempo todo, sem descanso,
A mesma vida, sem ao menos
Qualquer surpresa ou avanço,
Nem desprazeres tão terrenos;
Só lamentando o amanhecer,
Sempre atracado ao velho cais.
Vai mais um ano: e assim
Se esfarelam os seus sonhos,
Que são os mesmos, não há jeito;
E por jamais concretizados,
Se acumulam no seu peito,
E nas manhãs frias, calados,
Vêm contrafeitos e medonhos
Pedir que tudo chegue ao fim.
Viver é isso: desistir,
Tentar de novo, tanto faz;
Seja no porto ou estuário,
Submergindo ou à deriva,
É sempre o mesmo itinerário,
É vã qualquer expectativa
Que o novo ano sempre traz
Aos dissabores do porvir.
Então é isso: morre o dia,
Depois da tarde morna e baça,
E com a noite no teu ser,
Aniversário, Ano-Novo,
Tudo um grande anoitecer;
Ficando só ou com o povo,
Não importando o que se faça,
A vida é uma alegoria.
10.9.14
Em mim nada está como é: tudo é um tremendo esforço de ser.
Veja só o céu de noite:
É como olhar para dentro,
Na dor feito a de um açoite,
Para o gélido momento
Em que, ínfimos, sentimos,
Que tudo é gratuito e vão
Nos domínios intestinos
Da absoluta escuridão.
Almas atrás de respostas
(Estrelas opacas, mortas);
Toda a gente insegura,
Mergulhada na amargura
Dessa angústia que sempre
Vai revirando no ventre
E finda sem resolver
O que é ser e não ser.
A vida é um espaço,
Desolação de regaço,
Perdido em tal distância
(Sempre incompreendida)
De elegante irrelevância
Que a hora da partida
Já se anuncia ao chegar
Ao negrume desse mar.
Na desordem do Universo
Até os astros se afastam
Uns dos outros, solitários,
Vendo o Tempo ir e vir,
Com o rumo tão perverso
Dos fados que resultam
(Ignorando calendários),
Da condição de existir.
Jamais finda o tormento:
Nunca deixa ir embora
Tanto a nós quanto aos astros;
Não importando a distância
Do escapar dessa ânsia,
Permanecerão os rastros
Universo inteiro afora,
Coração inteiro adentro.
É como olhar para dentro,
Na dor feito a de um açoite,
Para o gélido momento
Em que, ínfimos, sentimos,
Que tudo é gratuito e vão
Nos domínios intestinos
Da absoluta escuridão.
Almas atrás de respostas
(Estrelas opacas, mortas);
Toda a gente insegura,
Mergulhada na amargura
Dessa angústia que sempre
Vai revirando no ventre
E finda sem resolver
O que é ser e não ser.
A vida é um espaço,
Desolação de regaço,
Perdido em tal distância
(Sempre incompreendida)
De elegante irrelevância
Que a hora da partida
Já se anuncia ao chegar
Ao negrume desse mar.
Na desordem do Universo
Até os astros se afastam
Uns dos outros, solitários,
Vendo o Tempo ir e vir,
Com o rumo tão perverso
Dos fados que resultam
(Ignorando calendários),
Da condição de existir.
Jamais finda o tormento:
Nunca deixa ir embora
Tanto a nós quanto aos astros;
Não importando a distância
Do escapar dessa ânsia,
Permanecerão os rastros
Universo inteiro afora,
Coração inteiro adentro.
7.8.14
Og de følelser som kunne røres er vekk for all tid.
"Porque no hay una poesía festiva, alguien había dicho, pues quizá sólo del tiempo y de lo irreparable puede hablar.”
(Ernesto Sabato, Abaddón El Exterminador)
Diz-me: qual é a tua angústia?
Que mal te aflige esse tanto,
Essa tristeza que até dói,
Das mesmas cartas sobre a mesa,
Não importando se os dias
Têm sido como tu querias,
Ou se qualquer expectativa
No fim de tudo desatina
Numa esperança morta-viva,
Nos braços lassos da rotina?
Pois finda o dia e o mês,
E a semana, e outra vez
Vem o cansaço da estreiteza
A cada sonho que ela mói,
E nada enxuga esse pranto.
É tanta dor, um compromisso
Com os desvãos da sorte má,
Em achar tudo tão cinzento,
Pois dá no mesmo, na verdade,
Te entregares à vaidade
De aproveitar as tardes baças
Pisoteando as folhas secas,
Ou lamentares nas charnecas
Como se fossem meras praças;
Seja no excesso ou na falta,
A existência, vã e infausta,
A cada pálido momento,
E infelizmente já não há
Tempo que leve embora isso.
– Diz-me: qual é a tua angústia?
24.4.14
ἐδάκρυσεν ὁ Ἰησοῦς.
Todos na casa do Senhor
A contemplar este mistério:
É Sexta-Feira da Paixão.
Ah, vejam só o carpinteiro
– Inevitável ironia! –,
Pregado ao áspero madeiro,
Exatamente o que servia
– Destino irônico e malsão –,
Em dias menos deletérios,
A ele mesmo de labor.
Aqui de fora só consigo
Pensar que nossos rudes fados,
Em cada ato ou desatino,
Tal qual o triste nazareno,
Somos nós mesmos que engendramos:
Mesmo num erro bem pequeno,
Em tantos tolos desenganos,
Estão os pregos do Destino
A nos fazer crucificados;
– Somos o nosso inimigo.
Deságua a tarde com esgar;
Rasgado o véu do firmamento
– Nossos esforços malogrados –,
O fim deste rude calvário
Terá no tédio sua gólgota,
Será o nosso itinerário
Até a última derrota;
E pela sorte abandonados,
Nos restará só o lamento:
– Ninguém irá ressuscitar.
A contemplar este mistério:
É Sexta-Feira da Paixão.
Ah, vejam só o carpinteiro
– Inevitável ironia! –,
Pregado ao áspero madeiro,
Exatamente o que servia
– Destino irônico e malsão –,
Em dias menos deletérios,
A ele mesmo de labor.
Aqui de fora só consigo
Pensar que nossos rudes fados,
Em cada ato ou desatino,
Tal qual o triste nazareno,
Somos nós mesmos que engendramos:
Mesmo num erro bem pequeno,
Em tantos tolos desenganos,
Estão os pregos do Destino
A nos fazer crucificados;
– Somos o nosso inimigo.
Deságua a tarde com esgar;
Rasgado o véu do firmamento
– Nossos esforços malogrados –,
O fim deste rude calvário
Terá no tédio sua gólgota,
Será o nosso itinerário
Até a última derrota;
E pela sorte abandonados,
Nos restará só o lamento:
– Ninguém irá ressuscitar.
21.3.14
O que és não vem à flor das frases e dos dias.
Vai à janela e olha:
As rosas não são mais rosa,
Pereceu todo o jardim;
Se perderam os perfumes
Nas cinzas de um dia cinza.
E você, frio e ranzinza,
Submerso em queixumes,
Deixou que até o jasmim,
Murcho, servisse de glosa
À sua rude escolha.
Sobre o poente baço,
De sol frio a fenecer,
Um gosto de nunca mais
No chão recendendo à morte.
Mas olha, apesar de tudo,
Você, cego, surdo e mudo,
Até que tem muita sorte,
Talvez sorte até demais,
E até pode aprender
Com esse novo fracasso.
Sem cinismo ou ironia:
Você pelo menos pode
Ou cuidar menos de si,
Ou mais do que o rodeia,
Não deixando que as flores
Morram por teus pormenores
Que desaguam à mancheia;
Pois qual flor morta ali
Será adorno da ode
À sua própria agonia?
As rosas não são mais rosa,
Pereceu todo o jardim;
Se perderam os perfumes
Nas cinzas de um dia cinza.
E você, frio e ranzinza,
Submerso em queixumes,
Deixou que até o jasmim,
Murcho, servisse de glosa
À sua rude escolha.
Sobre o poente baço,
De sol frio a fenecer,
Um gosto de nunca mais
No chão recendendo à morte.
Mas olha, apesar de tudo,
Você, cego, surdo e mudo,
Até que tem muita sorte,
Talvez sorte até demais,
E até pode aprender
Com esse novo fracasso.
Sem cinismo ou ironia:
Você pelo menos pode
Ou cuidar menos de si,
Ou mais do que o rodeia,
Não deixando que as flores
Morram por teus pormenores
Que desaguam à mancheia;
Pois qual flor morta ali
Será adorno da ode
À sua própria agonia?
11.3.14
Eu desejo que o Sol caia no mar do seu peito.
No cenho corre o suor,
Simbolizando a ansiedade,
Aquela angústia, na verdade,
De quem espera o pior.
Pois navegando os oceanos
De tanto asfalto e concreto
Inevitável, quase certo,
Era ceder aos desenganos.
Adiantou se esconder,
Se desculpar por cometer
Os mesmos erros, amiúde,
E tropeçar na finitude?
Claro que não; mortalidade
É o extrato, na verdade.
Impermanência: fim da festa
Das vaidades – nada resta.
Pois não importa o seu desejo
E não importa a sua fé
Você será o que já é:
Desventurado e malfazejo.
Vai pelos campos infernais
Nas tardes quentes de verão
Colher jasmins do nunca mais
E sepultar o coração.
Simbolizando a ansiedade,
Aquela angústia, na verdade,
De quem espera o pior.
Pois navegando os oceanos
De tanto asfalto e concreto
Inevitável, quase certo,
Era ceder aos desenganos.
Adiantou se esconder,
Se desculpar por cometer
Os mesmos erros, amiúde,
E tropeçar na finitude?
Claro que não; mortalidade
É o extrato, na verdade.
Impermanência: fim da festa
Das vaidades – nada resta.
Pois não importa o seu desejo
E não importa a sua fé
Você será o que já é:
Desventurado e malfazejo.
Vai pelos campos infernais
Nas tardes quentes de verão
Colher jasmins do nunca mais
E sepultar o coração.
28.2.14
Fate can move mountains. Love would always run away. Everything happens for a reason. For yours, life, there's hope. Hope... I gotta tell you something.
[Sexta-Feira de Cinzas Pré-Carnaval,
de 22h22min a 22h40min, ao som de Ulver, Kveldssanger,
em divertidos (?) hexassílabos quebrados/heroicos.]
Já
pensou que um dia
Você
estará morto?
Sim,
você vai morrer;
Embora
viva como
Jamais
fosse fazê-lo,
Virá o
anjo do Selo
Dizendo
‘ecce homo’
‘Leva
embora esse ser’
Direto
para o horto
Onde jamais
é dia.
E o sol
do fim da tarde,
Rancor
crepuscular
De
arrependimento,
Como se
adiantasse
Correr
ou descansar
Sussurra
com pesar:
‘Morrer
finda o impasse
E
repousa o momento
No
rigor tumular’:
– Agora
já é tarde.
E na
eterna noite
Cairá
sempre o manto
Sobre o
teu fracasso:
‘Sic transit gloria mundi,’
– O
anjo a lhe açoitar,
Verme
que roerá
Cada
sonho que finge
Existir
no regaço
Do seu
amargo pranto
Onde
sempre é noite.
9.1.14
Nothing much to say, I guess: just the same, as all the rest.
Já finda outro expediente
De trabalhar de viver;
Tudo que há é o cansaço,
E o repouso em um regaço,
Até o lasso amanhecer,
É o desejo renitente.
Vi-me erguendo a paciência,
Uma pirâmide de tédio;
E nem faz tanta diferença
Nessa perversa Renascença,
Pois esse travo sem remédio
É a malograda existência.
E das mais tétricas alturas
Vão despencando as madrugadas
Feito esperanças, feito sonhos,
Em pesadelos tão medonhos,
Que choram outras alvoradas
De silêncio e amarguras.
De trabalhar de viver;
Tudo que há é o cansaço,
E o repouso em um regaço,
Até o lasso amanhecer,
É o desejo renitente.
Vi-me erguendo a paciência,
Uma pirâmide de tédio;
E nem faz tanta diferença
Nessa perversa Renascença,
Pois esse travo sem remédio
É a malograda existência.
E das mais tétricas alturas
Vão despencando as madrugadas
Feito esperanças, feito sonhos,
Em pesadelos tão medonhos,
Que choram outras alvoradas
De silêncio e amarguras.
29.12.13
Summer is winter and you always knew.
Para quem nasce com a sina de otário
Nunca é fácil desviar do itinerário:
Pois quem é tolo se separa do orgulho
Por qualquer mera tentativa de ilusão
(Ele se engana e desagrada o coração),
Para voltar ao indecifrável mergulho
Na profundeza que o ilude sem pudor
– Ele nem sabe mesmo qual o seu valor.
Onde será que ele guarda os fracassos
Que acompanham o tempo todo os seus passos?
Pois toda vez que ele pensa “estou com sorte!”,
Realidades inclementes tomam forma
Para fazer de uma derrota sempre a norma,
E um silêncio mais profundo que a morte
Já oblitera qualquer resto de esperança
– No coração e em sua erma vizinhança.
Nunca é fácil desviar do itinerário:
Pois quem é tolo se separa do orgulho
Por qualquer mera tentativa de ilusão
(Ele se engana e desagrada o coração),
Para voltar ao indecifrável mergulho
Na profundeza que o ilude sem pudor
– Ele nem sabe mesmo qual o seu valor.
Onde será que ele guarda os fracassos
Que acompanham o tempo todo os seus passos?
Pois toda vez que ele pensa “estou com sorte!”,
Realidades inclementes tomam forma
Para fazer de uma derrota sempre a norma,
E um silêncio mais profundo que a morte
Já oblitera qualquer resto de esperança
– No coração e em sua erma vizinhança.
17.11.13
Can I find my fate? Can I be one with my desire?
Ansioso,
você diz;
Mas qual é a tua ânsia,
A angústia no teu seio
Que te priva dos prazeres,
Empalidece os quereres
Que te servem de esteio,
Esvazia as importâncias,
Deixa a vida por um triz?
Pois essa dor que te consome
E te deixa assim tão fraco,
Sem vontade de viver,
Afundado em desespero,
Já engendra com esmero,
A cada amanhecer,
Tudo o que te faz opaco
E quase esquecer teu nome.
Já termina o calendário
Cheio de indefinição,
Estendendo seus tentáculos,
E você nem vai saber
Como é sempre correr
Tropeçando em obstáculos
Sem sentido ou direção
No teu breve itinerário.
Então toma outro trago,
Usa qualquer outro ópio,
Que a vida não demora
A arder, se consumir,
(Até a hora de partir)
No tédio de qualquer hora
E no horror que é próprio
Da má sorte e seu afago.
Mas qual é a tua ânsia,
A angústia no teu seio
Que te priva dos prazeres,
Empalidece os quereres
Que te servem de esteio,
Esvazia as importâncias,
Deixa a vida por um triz?
Pois essa dor que te consome
E te deixa assim tão fraco,
Sem vontade de viver,
Afundado em desespero,
Já engendra com esmero,
A cada amanhecer,
Tudo o que te faz opaco
E quase esquecer teu nome.
Já termina o calendário
Cheio de indefinição,
Estendendo seus tentáculos,
E você nem vai saber
Como é sempre correr
Tropeçando em obstáculos
Sem sentido ou direção
No teu breve itinerário.
Então toma outro trago,
Usa qualquer outro ópio,
Que a vida não demora
A arder, se consumir,
(Até a hora de partir)
No tédio de qualquer hora
E no horror que é próprio
Da má sorte e seu afago.
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