28.4.09

Você é um exemplar do fundo do poço.

A bebida te afoga nas mágoas
Seus desejos são pervertidos

Os segredos que você esconde
As fofocas que você sabe dos outros

Aquele pênalti que não te deram
A namorada que te deu o fora

A felicidade que não chega nunca
A esperança que já foi embora

A noite que é mal dormida
O sexo que é feito às pressas

O emprego que não dá muito dinheiro
Estima dependendo do trabalho

Os mendigos que sempre pedem esmola
As putas e os pivetes do farol

O medo que você tem da morte
A perda da vontade de viver

As horas que demoram pra passar
A vida que acontece tão depressa

Cada um carrega a cruz do outro
Você está ao alcance da luz.

A esperança é lápis no papel: ela pode se apagar.

E daí se já morreu aquela estrela? Aqui da Terra, continua a brilhar. O que importa é que eu ainda possa vê-la, mesmo que ela não possa me alcançar. Se as palavras são tudo que nós temos, e nos separam os baldios terrenos, são cartas de poesias que preenchem as tardes vazias. Cale-se, pois, na sua ignorância. Deixe o seu papel assim, vazio. Você superestima essa distância que seca a água do teu rio. Na verdade é tudo mentira: ninguém sofreu assim, só invenção dentro de mim pra causar a tua ira. Nem em si essa história cabe: talvez seja se alimentar de ilusão. Mas o amor, você bem sabe, é tudo que não tem explicação.

27.4.09

No deserto do seu olhar, quantos sonhos vão se esconder?

Mais um pouco de spleen e charutos num país que se perdeu sem conhecer um apogeu na miríade dos edifícios rurais e promontórios urbanos da terra desoladamente repleta de gente animalizada que perpassa a vida em quaisquer vestígios de esperança vadia e malcheirosa. No estômago das borboletas, que bichos se reviram de paixão e ódio? Da contribuição paupérrima dos acertos até os fins de qualquer angústia, inutensílios fragmentados de uma vertigem do discurso desgastado se amontoam eM universos inteiros de metades desiguais. Ante a multidão, agarro os trapos do que fui e a túnica inconsútil do que sou, e entrego tudo a você, enquanto as nuvens fogem do horizonte, enquanto o corpo escapa pelo ralo gradeado da alma entulhada de afazeres metafísicos sem nenhuma utilidade. Só desejo ser o Sol, o Sol deseja ficar só; por isso se esconde, por isso se vinga nos dias mais quentes de suor e apodrecimento, quando seus raios incineram os sonhos de miséria e humildade, água turva evaporada do céu e derramada do chão. Sem qualidades. Sem coisa alguma. Totalidade: já desisti.

E as horas são velas fluidas da nau em que, oh! alma, descuidas, das esperanças tardias.

No fim da linha tem a margem. Coloco um ponto. Reinicio mais abaixo. É um abismo de queda imensa. A quarta e quinta margem, como fosse de um rio, além dos limites da linha reta do destino feito, ascendem do caminho, feito miragem, feito um conto mal contado e sem encaixe no cinismo que deixa a porta sempre aberta para o frio entrar, inverno eterno de convites sempre por um fio que corta a página certa do escrito desdito de quem não pode mais errar. Viro a folha da vida, fecho o caderno do mim. Reescrevo minha saída, invento sempre o mesmo fim.

Desce profundo o relâmpago de tuas águas em meu corpo.

Já mentimos um pro outro, já nos machucamos com a verdade. Na mesma noite adormecemos juntos, tivemos sonhos e pesadelos, e despertamos para o mesmo amanhecer. Já pensamos que a vida era pouco, já choramos sem as lágrimas, viramos todas as páginas. Bebemos da mesma taça, beijamos e abraçamos os mesmos medos, abençoados pela mesma Graça do encontro sempre renovado. Já enfrentamos tantas coisas, ganhando derrotas e perdendo vitórias. Perdemo-nos e nos encontramos em olhares, cumplicidades, histórias e memórias. Atravessamos os anos e as cidades, num amor inenarrável e direto como um vírus, decerto certeiro como um tiro, no acaso de um relâmpago, inexorável como uma correnteza. Dois rios seguindo a mesma pista, se encontrando e desaguando no único mar absoluto. Amor da primeira vista até o último suspiro.

22.4.09

Meu coração vive reclamando noite e dia.

Começou como uma brincadeira:
Caneta, papel e giz de cera;
Já nas primeiras letras escritas
Proporcionei diversões malditas.
E desenhando em tons escuros
Eu comecei a derrubar os muros.

Pois se engendrou o primeiro erro
No exato instante em que a linguagem
Que fez os deuses criou a luz,
Levando ao mesmo grande desterro
Ambos os lados da minha imagem:
̶ Deuses e homens na mesma cruz.

É até o fim, pois, que eu escrevo;
São meus os versos escrevinhados
Fazendo não do meu próprio sim
(‘Inda não posso, mas sei que devo)
Em territórios tão desolados
Como se não fosse para mim.

Ver-te-ei numa noite qualquer
Pois és a minha própria metade
(Lua e estrelas no firmamento);
Na mão, na tela ou no pensamento
Devo escrever mesmo sem vontade
A natural angústia de ser.

Em todo lugar, um pedaço do fim.

Já tive medo.
Já tive coragem.
Já tive certezas.
Hoje tenho uma dúvida:
Ainda tenho você?