30.6.09

Ciclones de estrelas desenham-se livres e fortes diantes de nós.

[Escrito com Mariel Moura entre 00h47min e 01h18min]

Sob os auspícios da Estrela de Absinto, durmo com os anjos psicodélicos de faixa e asas negras, anjos dos círculos benzodiazepínicos, anjos que acalmam, enlevam, carregam carcaças feito valquírias. Miríades de anjos caleidoscópicos que sopram sonhos e pesadelos, que me cobrem de flores de vida e morte, que me desabam o manto da escuridão, da noite sem sono, do adormecer sem sonhar, da alegria química, do sorriso paranóico, da queda inevitável. Esses, esvoaçantes de aura cinza, de cauda peculiar, clamam aos animais pitorescos que nos circundam: oxalá, meus filhos de semblante triste, oxalá estivessem aqui, vindo conosco, desprezíveis. Num sorriso triste de quem está cansado da monotonia da eternidade infindável desde antes da aurora dos tempos, sobre os pés puríssimos que jamais tocaram o orbe sujo e cheiro de vícios e desventuras. O cansaço, feito um cacto afogado em chamas solares, perdido em pó de bicarbonato, com os tendões cansados e pés mancos, sol magnético revirando sob a lousa crestada entre nossos passos incertos na estrada de tijolos velhos e amarelados, ouro-de-tolo pelas margens do adeus, qual se ouviu dizer paralelamente a outras cores de novos tijolos ̶ e o magnetismo que o levava embora vinha de cima, claro, e de todos os lados, como uma infindável melodia superior a qualquer tecnologia de som ̶, foi saudado perversamente pelas árvores que balançavam ante o vento etéreo, derramando suas folhas e flores, que, num arranjo inusitado e surpreendente de tão óbvio, ungiam mil coroas de flores para reis tumulares esquecidos no caminho. Lugar onde, preciosamente, os ritos de passagem e de congratulação aconteciam diante daquele jardim tempestuoso, verde, de cores inaudíveis, passos surdos, marchas descoordenadas e imperadores impotentes, untado pelo mel que as moscas infernais recolhem das flores do mal que um dia colhi no jardim de Hades, a fim de adornar seu pescoço e deixar seu cenho misterioso menos franzido. Um sorriso ácido, por favor, daqueles de derreter núcleos mortos de estrelas esquecidas. Quero uma supernova de antimatéria, o puro caos, o cais do porto que dá pro ponto sem retorno. Flores, frutos, de todo o perímetro das colméias que corroem estes tecidos de hipocrisia, oh!, todo o sentido e a anestesia que te faz caída como uma pétala entorpecida. Ele não vai te perturbar, nem canibalizar suas poucas vestimentas divinas, serenas. Retirem-se desta arena, deixem a medula e a elisão de sua parca consciência. E tudo enfim explode num sol infernal e abrasivo, impiedoso de tanto rancor, incinerando em puro delírio que explode colorido nos cinco sentidos. Foram-se os sonhos, resta a terra desolada de cores apocalípticas. Foram-se os cantos, os docentes, os tupinambás de lá, o rico sem bagatela, a pureza cadente da moça que chora sozinha no quarto, a surpresa e o grito áspero, todas as tribos e os movimentos disseminados do dissabor das diferenças. Ninguém vê, quero a destruição puríssima, ajudar o astro-rei a colocar tudo debaixo do tapete. Somos todos cinzas jogadas sobre os tapete dos valores que ninguém quer assumir. Aqueles que custam muito e não vale nada. Do pó de estrelas ao pó sob o chão de tacos da casa de subúrbio. Com um messias sujo de lama, sangue e excrementos, humano demais, humano demais.

2 comentários:

disse...

"Foram-se os cantos, os docentes, os tupinambás de lá, o rico sem bagatela, a pureza cadente da moça que chora sozinha no quarto, a surpresa e o grito áspero, todas as tribos e os movimentos disseminados do dissabor das diferenças."
É isso...
Texto que traduz muito mais do que psicodelia.
Bjos

Mariel F. Moura disse...

É o inimaginável mesmo. Aquilo que só tem uma identidade. É aquela conexão imantada entre duas cabeças. É a sede de consumo gratuito, que não se anuncia em rádiopatrulha, pelas madrugadas. É a pura manifestação do desencanto natural, das chácaras cinzas e monocromáticas que habitam as nossas mentes. Aqui, nós somos castelões, únicos donos dessa morada, ainda que esteja fixada em pequenos cascalhos sem muita segurança.